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A CAIXA DE REBUÇADOS

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AVÓ MARIA DO ROSÁRIO ( 1877 / 1954 ) Quando eu tinha quinze anos,fui ao meu primeiro baile de vestido comprido.Não era o baile das debutantes em Viena, nem a apresentação na corte inglesa.Era o tradicional Baile do Fim do Ano,organizado pelo Rotary Clube ,a favor da Creche ,instituição venerada e auxiliada por todos. Mas para nós,jovens, tinha grande importância, pois a partir dessa data teríamos direito a divertimentos menos infantis e até a namoriscar.Além do meu vestido comprido,recebi nessa ocasião,um conselho da minha Avó Maria do Rosário,que me acompanhou toda a vida e foi de grande auxilio em diversas ocasiões. Quando no dia seguinte me “pavoneava”à sua frente com o meu belo vestido e lhe contava as alegrias da noite anterior,disse-me: é tempo de arranjares a tua "Caixa de Rebuçados” .Perante a minha confusão, continuou: a Caixa de Rebuçados é o teu coraç...

A TERTÚLIA DOS AVÓS

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Periódicamente, reunimo-nos com outros colegas do meu marido e as respectivas consortes no café, para charlar.Mas com os anos, a nossa tertúlia tem perdido efectivos e neste momento estamos reduzidos a 4 casais e um viuvo Como ínicio da reunião,as conversas giram sobre as respectivas doenças Aliás,parece ser um tema muito ao gosto dos portugueses.Quando alguns se reunem,começam por falar nas doenças e em seguida abordam o tema das comidas;restaurante para ali, receitas para aqui,o que se comeu ontem, o que iremos comer amanhã.Voltando à tertúlia dos avós. Ao tema saúde, segue-se a politica e como somos velhos prudentes, que sabem que politica e religião só deve ser discutido se estiverem todos de acordo,o tema esgota-se rápidamente e chega a vez do Boletim Meteriolágico. Todos acham que está demasiado frio ou chuva excessiva Concordam que a humidade afecta os nossos pobres ossos e existe o perigo duma gripe,coisa muito má para a nossa idade (por momentos volta-se tema saúde,com gran...

REFERENDO I I

No próximo dia 11, irei votar. SIM . NÃO , BRANCO , mas voto. Não só porque é um Direito e um Dever cívico que tenho, mas também porque só votando poderei criticar aqueles em quem votei, se não cumprirem o que prometeram. Desta vez,como se trata dum referendo,tenho apenas que dizer SIM ou NÃO . E ao contrário das outras vezes estou muito indecisa. Se votar NÃO, talvez esteja a contribuir para a infelicidade de alguma mulher. Se votar SIM, de certeza que estou a contribuir para tirar uma vida; porque, por mais voltas que derem os defensores do SIM, um Embrião humano é o concepto quando está em sua fase de diferenciação orgânica, da segunda à sétima semana depois da fecundação, etapa conhecida como período embrionário. Com o meu NÃO, deverei condenar uma mulher a ser julgada por um acto, que certamen te , só grandes dificuldades financeiras a levaram a cometer? Com o meu SIM, deverei permitir que seja destruída uma vida, que se não a impedissem, seguiria o seu curso natural? Tenho estado...

A.C e D.C

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Estava eu cismando na Vida, quando me ocorreu que a Minha, tinha dois períodos bem definidos: A:C (antes do computador) e D:C ( depois do computador. Durante o período A:C (1933-2003) nasci, cresci, fui à escola, vivi um curto mas belo período de adolescente, tive filhos, tive netos e agora espero ansiosamente pelos bisnetos. Tudo isto num espaço de 70 anos. Durante todos esses anos, nada aconteceu de espectacular, ou pelo menos, que não tivesse acontecido a outras mulheres. Convivi com tachos e panelas, conheci a sensação maravilhosa que é trocar o clássico tanque de cimento por uma espalhafatosa máquina de lavar roupa, o corre-corre que é arranjar almoço para marido e filhos que chegam do trabalho e da escola, para rapidamente regressarem; tive um contacto amigável com a tábua de engomar, a que ainda hoje chamo a “harpa”. Porque como já todos sabem, pertenço aquela classe chamada “ donas de casa” , para não dizer doméstica , um nome horrível que me recorda sempre um "animal...

A MINHA CASA

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O que é a minha casa? É o apartamento onde vivo há mais de 35 anos? Habitar uma casa fará dela um lar? Conheço casas cheias de gente mas que sempre me pareceram vazias. A grande vivenda da minha amiga Lurdes, onde ela vive sozinha desde que o marido morreu, parece-me sempre repleta de recordações. A minha casa é o espelho onde olho o meu rosto ao levantar-me, sem a preocupação se tenho mais uma ou duas rugas, se o meu cabelo está mais branco: ele diz-me que estou viva e isso é como se fosse uma saudação da própria casa. É a cozinha, onde pequenas comodidades eléctricas facilitam o meu trabalho. É a varanda à qual chamo pomposamente Jardim de Inverno, e onde converso e censuro as minhas Plantas Verdes. Bom dia Feto-Real, como estás bonito! Mas tu, Calathea, tens que ficar menos caída. Disparate? Pode ser, Mas senão dermos à Vida um pouco do colorido da nossa imaginação como ela será monótona! A minha casa é a grande sala, que eu comparo ao coração do meu lar. As paredes estão quase tot...

ETERNOS NAMORADOS

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ETERNOS NAMORADOS VELHOS AMIGOS OS SOBRINHOS DE ADOPÇÃO AQUELA MÃOZINHA BOBA! Conheci este casal de eternos namorados há quase 50 anos Mas a amizade do meu marido com o Francisco, vem de muito mais longe. Conhece...
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S ou bisbilhoteira ou observadora? Na opinião do meu marido sou bisbilhoteira, porque quando viajo ou comemos fora, estou permanentemente a reparar nos outros; para alguns dos meus amigos, sou observadora.Por mim, penso que sou curiosa. Sucede que nos vinte minutos que viajo entre Paço de Arcos e Cais do Sodré, no Metro, quando me detenho num local publico (e não há lugar melhor para observar os nossos semelhantes, que um transporte, seja ele urbano ou de longo curso, um restaurante, ou uma paragem de autocarro ) tenho muito tempo para reparar nos que me rodeiam. Aprendi com isso,que a Vida, na sua generalidade, não apresenta espectos muito diferentes dumas pessoas para as outras.Todos temos aborrecimentos e alegrias, esperança e desespero.Falamos dos filhos, dos netos, da saúde,do preço das coisas, dos patrões, dos empregados e todos gostamos um pouco de fofocas. É assim que, por vezes, venho a conhecer pessoas que têm uma história especial, e em quem, os apressados e indiferentes...